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observatorio74



Terça-feira, 03.04.12

Os Suburbanistas




Leandro Di Menor

Leandro Di Menor

Luiza Dionizio


Luiz Carlos da Vila

Luiz Carlos da Vila

Dorina


Luiz Carlos da Vila

Luiz Carlos da Vila

Luiz Carlos da Vila

Lena Duarte

Lena Duarte

Gabrielzinho do Irajá

Gabrielzinho do Irajá

Fonte: O Globo,
domingo, 16 de maio de 2004

Segundo Caderno


A onda de ser ‘suburbanista’


Hugo Sukman



Nascidos no subúrbio nos melhores dias, a cantora Dorina (do Irajá) e os compositores Luiz Carlos da Vila (Vila da Penha) e Mauro Diniz (de Oswaldo Cruz) resolveram reverter essa mania de tristeza que assolou o Rio de Janeiro afagando a sua alma. Ou seja, afagando o subúrbio. 


― Uma vez, o Zuenir Ventura escreveu que queria que o Rio de Janeiro fosse uma grande Ipanema. Eu queria que fosse um grande Irajá, mas o Irajá daquele tempo ― brinca Dorina.



A mais suburbana das cantoras de samba, Dorina garante que o tal espírito do subúrbio “daquele tempo” subsiste. Hoje mesmo, domingo, ela e outros artistas dão show no Boêmios do Irajá para arrecadar recursos para a família do recém-falecido compositor Silvio da Silva, gravado por Zeca Pagodinho (“Maneiras”). Festa, música e solidariedade, nada mais suburbano.



― Vou sair hoje com um gravador para pegar depoimentos das pessoas sobre ser suburbano. Esse negócio de que todo suburbano quer sair de lá não é verdade ― diz Dorina. ― Quem mora no subúrbio gosta de fazer o que nós fazemos na casa do Luiz Carlos da Vila. Sentar no quintal, sai uma comida, um poema que pode não ser sofisticado mas é vigoroso, um samba novo...



Numa dessas tardes na Vila da Penha, Dorina, Da Vila e Mauro Diniz tiveram a idéia de formar Os Suburbanistas, um trio para cantar a música do subúrbio e celebrar sua estética. 


― O samba está para o subúrbio como a bossa nova para a Zona Sul. Samba, para mim, é a música do subúrbio ― define Mauro Diniz, suburbano de estirpe, filho de Monarco, símbolo da Portela e de Oswaldo Cruz, autor da obra-prima do samba contemporâneo “Coração em desalinho” (“Numa estrada dessa vida/Eu te conheci, ó flor”...) e de dezenas de outros sucessos da música suburbana internacional. 


― O que a gente faz é brincar com as coisas sérias do subúrbio ― diz Luiz Carlos da Vila. ― Suburbano tem sotaque, fala “e aí, mermão ”, fala “sou carioca mermo ”. Gosta de quintal, de comidaria, de comer galinha. E tem estilo próprio de viver e de cantar. É isso que mostramos.



Discretamente, de modo bem suburbanista , o trio faz seus primeiros shows todas as quintas-feiras de maio, na Casa da Mãe Joana, Lapa. Com roteiro de Tulio Feliciano (o diretor dos shows de Zeca Pagodinho), Os Suburbanistas só cantam samba do subúrbio e terão, segundo seus integrantes, vida longa e devem virar disco. Abre, evidentemente, com “Geografia do samba”, partido-alto de Marquinhos de Oswaldo Cruz, sucesso de Beth Carvalho, que faz uma viagem de trem da Pavuna até a Central contando a história de cada subúrbio à borda da linha do trem. 


― É uma visão clássica do subúrbio ― diz Dorina. ― Para mostrar que a cultura carioca não é restrita ao espaço entre o mar e os morros. 


Filme e show têm a abordagem de samba e trem como a tradução do subúrbio.



Dorina, Da Vila e Diniz podem muito bem ser acusados de advogar em causa própria, suburbanos exaltando o subúrbio. O documentarista Roman Stulbach mora do lado da areia, no Leme. É paulista. E também vai exaltar o subúrbio, reforçando o clima suburbanista que se configura no ar. Vai fazer o documentário “Trem do samba”, na verdade utilizando os dois elementos-síntese do suburbanismo ― o trem que criou e define o subúrbio (subúrbio, no Rio, é bairro que fica na linha do trem), e o samba, que é a sua principal linguagem estética ― para falar do cotidiano dessas comunidades.



― Há hip hop, o funk e outras linguagens fortes hoje, mas é o samba o principal legado do subúrbio para a cultura brasileira ― diz Stulbach. ― E essa história se dá ao longo da linha do trem. 


Curiosamente, o filme “Trem do samba” e o show “Os Suburbanistas” tiveram as mesmas origens. Todos os envolvidos leram o fundamental livro “Guimbaustrilho” (Rioarte/Dantes), do Camões do Irajá, do Caminha do trem da Central, Nei Lopes, uma história poética do subúrbio, do trem e do samba. E todos já pegaram o tal “trem do samba”, idéia de Marquinhos de Oswaldo Cruz, inspirada em velho hábito inventado por Paulo da Portela nos anos 30 de fazer pagodes no trem, que todo dia 2 de dezembro (Dia Nacional do Samba) faz um comboio ferroviário de sambistas que vão até Oswaldo Cruz para uma grande festa. 


― O filme parte da festa, mas o foco é o cotidiano das comunidades ― diz Stulbach, que já filmou no último dia 2 de dezembro e vai prosseguir as filmagens este ano. 


Os personagens de Stulbach, que tem como roteirista o dramaturgo Bosco Brasil (autor da premiada peça “Novas diretrizes em tempos de paz”), justamente por querer dar tratamento dramático ao documentário, são os suburbanos. Gente como Claudio (ex-presidente da Escola de samba Quilombo) e a pastora Surica, de Oswaldo Cruz, Luciano (do Lins), Mariana (da Mangueira), Poeira (de Padre Miguel), Poeta (da Boca do Galo), pessoas ligadas ao samba, ao candomblé, à vida do subúrbio. 


Curiosamente, para quem pensa que a tal “imagem do Brasil” no exterior é restrita às praias da Zona Sul, o produtor do filme, Fernando Barbosa Lima (estréia do famoso produtor de TV no cinema), dá um depoimento revelador:


― O subúrbio, o samba despertam grande interesse no exterior. O filme tem grande mercado lá fora ― diz Barbosa Lima, que já negocia com a BBC e outras emissoras no exterior.



A onda suburbanista também chega à academia. O antropólogo Rolf Ribeiro de Souza finaliza o livro “O fenômeno suburbano”, reunindo textos dele e de historiadores, geógrafos e sociólogos. 


― As manifestações culturais do subúrbio se propagam boca a boca, por isso são mais duradouras. Há casos de grupos, como Os Devaneios, que há 30 anos fazem shows fora da região e ninguém ouve falar deles. O charme (estilo lento de funk) é um fenômeno suburbano, existe há décadas, e só agora se ouviu falar dele na Zona Sul. O livro abordará essa alma suburbana, sem o preconceito que o termo costuma acender em quem não é do subúrbio ― diz Rolf. 


Poeticamente, Luiz Carlos da Vila diz que o subúrbio é a alma, e o samba, o coração da música. O abstrato e o concreto da cidade, que precisa do subúrbio para existir.




Reduto vital para a alma carioca.




Cesar Tartaglia



Clube Pau Ferro, DJ Corello, Imperator, bar 401, Galetão de Vista Alegre. Nada? E Zeca Pagodinho, sua irmã Nicéa, Cacique de Ramos, Nei Lopes e Dorina, Paulo da Portela, churrasquinho de gato e samba? Ligou? Pois é, o subúrbio do Rio, aquele pedaço de mundo cortado pelo trem da Central e pela Linha 2 do Metrô, tem tudo isso e é isso: um mundo sem o qual não haveria a alma carioca. Tem manifestações desconhecidas ― quem, no lado mais bem cuidado do Rebouças, poderia falar com propriedade da delícia que era comer tremoços com chope no Ponto Certo, ali na Monsenhor Félix? E tem também o seu lado mais visível, que transborda de Irajá e suas freguesias para, aí sim, se juntar ao carioquismo bem-nascido da Zona Sul e dar paladar ao caldo de cultura do Rio. 


O subúrbio é logo ali. Tomando o Centro da cidade como ponto de referência, o bairro mais distante, Marechal Hermes, fica a 25 quilômetros do Amarelinho. O problema é que as transformações culturais e a ditadura de comportamento da Zona Sul não só fizeram que o além-Zona Norte parecesse mais longe, como também deram-lhe uma conotação pejorativa, na qual até o mestre Aurélio embarcou. Está lá no dicionário, entre quatro óbvias designações para o termo “suburbano”, aquela que dói na alma carioca: (indivíduo) “que tem ou revela mau gosto”. E, no entanto, se subúrbio é aquela parte da cidade que se distancia do Centro, então Ipanema, Leblon e São Conrado também o são ― mas quem assume? 


O antropólogo Rolf Ribeiro de Souza, suburbano assumido de Irajá, observa:



― A imagem depreciada do subúrbio está presente nas novelas, no preconceito dos que não moram aqui e, portanto, não conhecem a riqueza dessa cultura.



Bingo: uma cultura formada por 40% da população do Rio, numa região que tem a maior concentração de descendentes africanos da cidade, não poderia passar em branco pela História. Do ramo, o próprio Rolf transformou em tese um fenômeno tipicamente carioca, e que ganha no subúrbio um sabor especial ― as confrarias de esquina reunidas em torno dos churrasquinhos de gato para comentar a pelada do fim de semana e se gabar de conquistas amorosas.




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por observatorio74 às 17:20



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